10 NÚMEROS para explicar por que é preciso ajudar África
Existem hoje mais democracias e registam-se melhores níveis de desempenho económico no continente negro do que nos anos 1970. Realizaram-se eleições e formaram-se quadros, mas os africanos continuam entre os menos desenvolvidos, os mais corruptos e os que maior risco têm de se tornarem Estados falhados. Por Ana Dias Cordeiro (Público)
700
milhões de pessoas, ou seja 13 por cento da população mundial, vivem nos 47 países da África subsariana. Esta é também a região onde vive um terço da população mundial "extremamente pobre" e a única zona do mundo onde o rendimento médio é menor agora do que há 30 anos. Entre 1980 e 2003, os países da África subsariana cresceram a uma média de mais de 5 por cento. Mas dos 32 países com os mais baixos níveis de desenvolvimento, 24 são africanos. Enquanto as exportações mundiais seguiram uma tendência ascendente ao longo dos últimos 50 anos, os africanos viram as suas exportações passar de cerca de 900 milhões de dólares para menos de metade.
46
anos é a esperança de vida média em África, quase metade da idade nos países desenvolvidos. Na Índia é de 63 anos. "A esperança de vida na maioria dos países da África Austral é pouco maior do que a verificada na Europa na Idade Média", diz James Morris, do Programa Alimentar Mundial. Metade da população do continente africano tem menos de 17 anos. Metade da população do Uganda tem menos de 14 anos e apenas 1,8 por cento tem mais de 65 anos.
13
milhões de africanos morreram de sida. Desses, 2,3 milhões só em 2004. A maioria dos 26 milhões de africanos infectados não tem acesso a tratamentos. Mas tem havido progressos: 500 mil pessoas estão actualmente a receber tratamento com antiretrovirais, o que é três vezes mais do que em Junho de 2004. Dos 40 milhões de doentes com sida em todo o mundo, dois terços estão em África. Na Suazilândia, o país mais afectado, um em cada quatro adultos tem a doença. Um milhão de pessoas no mundo - a maioria em África - morre vítima da malária, doença para a qual ainda não foi descoberta uma vacina. Os problemas da saúde prendem-se também com a falta de médicos e pessoal especializado. O Gana, por exemplo, gasta mais de quatro milhões de dólares em formação médica, mas continua a ter apenas 1500 médicos para uma população de vinte milhões. Muitos quadros africanos abandonam os seus países para fugir à instabilidade ou simplesmente à procura de melhores condições de vida na Europa ou nos Estados Unidos.
8,3
milhões de pessoas na África Austral necessitam hoje de ajuda alimentar, comparadas com 3,5 milhões que precisavam de assistência no princípio do ano. Para esse aumento, contribuíram os quatro milhões de zimbabweanos que precisam urgentemente de ajuda, num país onde a produção agrícola caiu drasticamente com as reformas impostas pelo Presidente Mugabe.
50
por cento da população africana vive com menos de um dólar por dia e 42 por cento não tem acesso a água potável. No bairro de Kibera, no Quénia, a pobreza extrema afecta 95 por cento dos habitantes e o dia-a-dia da maioria das famílias é passado a procurar formas de sobrevivência. O mesmo acontece nos bairros mais degradados do Roque Santeiro, em Luanda - onde jovens vindos das províncias à procura de um emprego acabam a vender no mercado informal, na delinquência ou na prostituição - ou de Chimanculo, em Maputo, onde o fecho de fábricas lançou muitos chefes de família para o desemprego, sem qualquer indemnização, e onde não existem ajudas do Estado para colmatar a carência extrema e a fome. A manter-se a tendência, a ONU estima que o número de pessoas a viver em bairros como Kibera, Roque Santeiro ou Chimanculo, em barracas de zinco, sem luz, água ou saneamento, e onde os acessos de lama estão atulhados de lixo, duplique até 2030 - atingindo os dois mil milhões de pessoas, das quais a maioria em África.
155
dias é o tempo necessário para se abrir um negócio na República Democrática do Congo. O número de africanos na posse de um telemóvel aumentou em 1000 por cento nos últimos cinco anos, para cerca de 8 por cento da população. E espera-se que possa atingir os 25 por cento da população até 2010.
30
é o número de países africanos com regimes democráticos. Eram apenas 3 em 1973. Apesar da abertura dos antigos sistemas de partido único ao multipartidarismo nos anos 1990, nem todos viveram a experiência da alternância. Moçambique já realizou três eleições e a Frelimo continua no poder. Omar Bongo, no poder no Gabão, desde 1968, foi eleito duas vezes (1991 e 1998), pode recandidatar-se e provavelmente ganhar, frente a uma oposição fraca. No Uganda, o Presidente Museveni, vencedor das duas primeiras presidenciais, prepara-se para alterar a Constituição e recandidatar-se a um novo mandato. Nalguns casos, as eleições servem para legitimar líderes que tomaram o poder pela força - no caso de Lansana Conte na Guiné-Conacri - ou legitimar regimes autoritários - como nos casos de Robert Mugabe, vencedor de eleições no Zimbabwe, ou de Paul Biya, na República dos Camarões, eleito pela segunda vez em 1997 num voto boicotado pela oposição. Porém, são cada vez mais os países onde a alternância (em legislativas ou presidenciais) foi pacífica e bem sucedida, como no Senegal, Cabo Verde ou Gana.
9
países africanos estão entre os 25 mais corruptos do mundo, segundo o índice calculado pela Transparency International. Angola está entre os cinco mais corruptos, como a Nigéria ou a Costa do Marfim. O Banco Mundial calcula que 40 por cento da riqueza privada da África subsariana estava fora do continente, em 1990, enquanto para a América Latina esse número era de 10 por cento. Esses recursos "privados" provêm de poupanças ou excedentes retirados da ajuda pública e representam "investimento perdido e oportunidades perdidas para economias inteiras e milhões de pessoas", escreveu o vice-presidente do Instituto para Assuntos Internacionais da África do Sul, Moeletsi Mbeki, na revista New Statesman. Para ele, "a ajuda deve ajudar as pessoas e não os governos".
11
dos 20 países em maior risco de se tornarem Estados falhados são de África. No grupo dos 10 mais vulneráveis estão sete africanos - entre eles Costa do Marfim, República Democrática do Congo, Sudão, Somália e Libéria. Mais do que a pobreza, é a desigualdade social e o fosso entre ricos e pobres que mais alimentam a instabilidade. A elevada criminalidade e a pressão demográfica também contribuem para classificar um país como estando em risco de se tornar num Estado falhado.