E se pura e simplesmente...
"Devem conhecer o caso de Srinivasa Ramanujan, que nasceu na Índia em 1887 e foi capturado e transportado para Cambridge, em Inglaterra, onde, incapaz de tolerar o clima, a alimentação e o regime académico, adoeceu, morrendo depois com trinta e três anos.
Ramanujan é mundialmente considerado como o maior matemático intuitivo da nossa era, isto é, um autodidacta que pensava em termos matemáticos e para quem a noção complicada da prova ou demonstração matemáticas era estranha. Muitos dos resultados de Ramanujan (ou especulações, como os seus detractores lhe chamam) continuam ainda por demonstrar, embora, muito provavelmente, sejam verdadeiros.
Que nos diz o fenómeno de um Ramanujan? Estaria Ramanujan mais próximo de Deus porque a sua mente (chamemos-lhe mente; seria um insulto gratuito chamar-lhe apenas cérebro) estava mais em sintonia, ou mais do que em sintonia, do que qualquer outra pessoa com a essência da razão? Se os senhores eruditos de Cambridge, e principalmente o Professor G. H. Hardy, não tivessem ido buscar as tais especulações a Ramanujan e comprovassem, laboriosamente, aquelas que conseguiam provar, será que Ramanujan ainda estaria mais próximo de Deus do que eles? E que aconteceria se, em vez de ir para Cambridge, Ramanujan tivesse, pura e simplesmente, ficado em casa a magicar enquanto preenchia registos aduaneiros para as Autoridades Portuárias de Madras?"
in Elizabeth Costello, J.M. Coetzee