Duras Verdades
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- Como é que se iniciou?
- Numa conferência de escritores no meio da Finlândia, já há uns anos.
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- Aquecem a cabana com uma fogueira e deixam-na encher-se de fumo. Depois abrem o alçapão do telhado durante o tempo necessário para deixar escapar o fumo, mas não o calor. Quando se entra tudo exala um aroma delicioso a madeira chamuscada. As paredes e os bancos estão cobertos de fuligem e, não tarda nada, nós também. O calor é tremendo.
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- Deve ter sido bem divertido.
- Se foi. E num outro dia houve um jogo de futebol entre os escritores finlandeses e o Resto do Mundo, à luz do sol da meia-noite.
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- Ainda vai a festas literárias? - perguntou Fanny.
- Já não sou convidado.
- Ficar enfiado numa casa de campo por baixo de um dos corredores aéreos de Gatwick deve parecer uma vida apagada em comparação com isso.
- De modo nenhum - disse Adrian. - É para mim uma fonte de profunda satisfação pensar que não tornarei a precisar de fazer parte dessas multidões inquietas dos terminais dos aeroportos. Especialmente nesta altura do ano.
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O seu amigo Sam Sharp tem um certo talento, mas não se esforça o suficiente para o aperfeiçoar. Escreve demais, demasiado depressa.
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Ao insistir em fazer jorrar argumentos do computador, como carros a sair de uma linha de montagem, nunca concede tempo a si próprio para avaliar a qualidade do trabalho que produz. Se receber uma crítica má, pode sempre encolher os ombros e esquecê-la, porque já está a trabalhar no próximo projecto. As pessoas para quem ele trabalha não lhe vão fazer críticas objectivas. Só estão interessadas nos custos, nos prazos e nas audiências. É aí que eu entro, para questionar a natureza do seu
sucesso. O seu próximo argumento será um bocadinho melhor do que teria sido, por causa da alfinetada que eu lhe dei no ego no outro dia.
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David Lodge