diario de navegacao
Tuesday, July 13, 2004
  Ainda... Anabela Mota Ribeiro – não batam mais no ceguinho!

Por baixo da Odisseia de Homero na versão original em grego, que decansa na minha mesa de cabeceira entre uma ou outra leitura integral, encontrei uns inimigos publicos...

“Anabela Mota Ribeiro apanha overdose de cultura
(Inimigo Público 19 Março 2004)

A conhecida jornalista Anabela Mota Ribeiro encontra-se internada no Hospital São Francisco de Xavier, após ter dado entrada nas urgências num estado considerado grave, em virtude de ter apanhado uma overdose de cultura. Segundo fontes próximas da multifacetada jornalista, na noite anterior, antes de adormecer, Anabela Mota Ribeiro terá terminado o aclamado romance ´Equador´, de Miguel Sousa Tavares, tendo dormido apenas duas horas, sonhando que entrevistava Mário Vargas Llosa. Assim que despertou, dirigiu-se para o duche, onde iniciou a leitura do novo livro de José Luís Peixoto.

Durante o pequeno-almoço, leu apressadamente os jornais do dia, olhando com especial atenção para o ´Jornal de Letras´, para a´Granta´e para o ´New Yorker´, aproveitando para ler na diagonal a obra completa de Al Berto e David Mourão-Ferreira, tendo posteriormente apanhado um táxi que a levaria ao CCB, onde viu todas as exposições em menos de duas horas, enquanto ouvia no walkman ´The Bells of Zlonice´de Dvorak.

Por volta do meio-dia, terá engolido apressadamente um folhado de salsicha, em plena Baixa, enquanto assistia a um espectáculo de mímica de rua. Depois, comprou um livro de ensaios de Derrida e discos de música búlgara na FNAC, seguindo depois para a Cinemateca, onde assistiu a um ciclo de cinema afegão, seguindo para a Gulbenkian, onde assitiu ao concerto de Vicente Amigo.

Mal terminou, correu para a Culturgest, onde participou na habitual tertúlia literária organizada por Prado Coelho, passou apressadamente pela galeria Zé dos Bois e terminou a noite, completamente extenuada, no Hot Club, onde se deliciou com um concerto de Mário Laginha em homenagem a Thelonious Monk. Terá sido nessa altura que a animadora cultural caiu desfalecida, sendo imediatamente conduzida para o hospital. Segundo um dos enfermeiros, durante o percurso, enquanto recebia oxigénio e soro, Anabela ainda tirou notas para o seu programa de televisão num bloco igual ao que Chatwin usava.”

:)

[Pedro: esta é para ti!]

Entretanto acabei de ler o Lolita a tempo de levar este perturbante livro na mala semi-vazia. Agora tenho de ver o filme (Patricia: no outro dia vi o High Fidelity - fartei-me de rir com os malucos da loja de discos - mas acho q ler o livro dp de ver o filme perde a piada?); lembro-me de ter visto apenas excertos. N os mesmos q deixo aqui.

“Os trâmites do divórcio atrsaram a minha viagem, e a sombra de mais outra guerra mundial descera sobre o globo quando, depois de um Inverno de tédio e pneumonia em Portugal, cheguei finalmente aos Estados Unidos. Em Nova Iorque aceitei sem hesitar o calmo emprego que o destino me ofereceu: consistia principalmente em inventar e compor anúncios de perfumes. Agradou-me o carácter ligeiro e os aspectos pseudoliterários do trabalho, a que me dedicava quando não tinha melhor que fazer.

Sentia-me curiosamente distante de mim próprio. Não me enlouqueciam quaisquer tentações. As gorduchas e lustrosas raparigas esquimós, com o seu fedor a peixe, o seu horrível cabelo negro e as suas caras de cobaias, ainda me inspiravam menos desejo que a Drª Johnson inspirava. Não há ninfas nas regiões polares.

os sonhos, sob o sol da meia-noite, tinham tendência para ser muito coloridos

Descobri uma fonte infinita de sadia recreação em brincar com psiquiatras: ludibriando-os manhosamente; não permitindo nunca que percebam que conhecemos os truques da profissão; inventando, para eles, sonhos complicados, clássicos puros em estilo (que os leva a ´eles´, aos extorsionistas do sonho, a sonhar e a acordar aos gritos); arreliando-os com simuladas ´cenas primitivas´, e nunca lhes consentindo o mais leve vislumbre dos nossos verdadeiros problemas sexuais. O suborno de uma enfermeira deu-me acesso a algumas fichas e descobri, quase a rebentar de riso, que me classificavam de ´potencialmente homossexual´ e ´totalmente impotente´. O desporto era tão formidável, e os seus resultados – no meu ´caso´- tão salutares, que me deixei ficar mais um mês inteirinho, depois de estar perfeitamente bem (a dormir como um prego e a comer como um colegial). E a seguir acrescentei-lhe ainda mais uma semana, só pelo prazer de intrujar um recém-chegado importante, uma celebridade refugiada (e, com certeza, desaparafusada), conhecida pelo hábito de convencer os pacientes que tinham assistido à sua própria concepção.

Como a vida é estranha! Apressamo-nos a malquistar os próprios fados que queríamos conquistar.

Isto é uma confissão: amo-o
Agora, meu queridíssimo, queridíssimo, mon cher, cher monsieur, leu o que escrevi; agora já sabe.
A situação é muito simples, chéri. Claro que sei, com absoluta certeza, que não sou nada para si, absolutamente nada. Oh, sim, gosta de conversar comigo (e de se divertir à minha custa, pobre de mim)... Mas eu não sou nada para si. Certo? Certo. Absolutamente nada para si. Mas se, depois de ler a minha ´confissão´, o seu sombrio temperamento romântico europeu achar que os meus atractivos chegam para tirar partido da minha carta e tente a sorte comigo, se isso acontecer será um criminoso, pior do que um raptor que violenta uma criança.
Deixe-me sonhar e devanear durante mais um bocadinho, meu adorado, pois sei que nesta altura já rasgou esta carta e os seus bocadinhos (ilegíveis) foram lançados no vórtice da sanita.
Sei como é reservado, como é ´britânico´.
Você, que sabe esconder os seus sentimentos mais fortes, deve considerar-me uma idiotazinha despudorada, por lhe abrir assim o meu pobre coração ferido.

Se a minha felicidade pudesse falar, teria enchido aquele elegante hotel com um barulho ensurdecedor.

No fim de contas, cavalheiros, estava a tornar-se mais do que evidente que todos aqueles detectives idênticos, em automóveis prismaticamente mutáveis, não passavam de invenções da minha mania da perseguição, imagens recorrentes baseadas na coincidência e numa semelhança fortuita.

Naquele momento, compreendi que o meu amor era tão sem esperança como nunca

Imagine-me, leitor, com a minha timidez, a minha antipatia por toda e qualquer ostentação, o meu sentido inerente do ´comme il faut´, imagine-me a disfarçar o frenesi da minha dor com um trémulo sorriso cativante, enquanto congeminava um pretexto qualquer, com um mínimo de plausibilidade

Lolita, qu´ai-je fait de ta vie?

Isso acabara, pelo menos por enquanto. Por outro lado, ai de mim!, dois anos de monstruosa satisfação tinham-me deixado certos hábitos lascivos, e eu temia que o vácuo em que vivia me pudesse empurrar para a liberdade da loucura súbita, se me visse confrontado com uma tentação ocasional.

Possuímos tendência para dotar os nossos amigos com a estabilidade de tipo que as personagens literárias adquirem
Sejam quais forem as evoluções por que passou esta ou aquela personagem popular entre as páginas de um livro, o seu destino está fixado no nosso espírito. Similarmente, esperamos que os nossos amigos sigam este ou aquele rumo convencional e lógico que para eles determinámos. Assim, X jamais comporá a música imortal que estaria em total desacordo com as sinfonias de segunda categoria a que nos habituou. Y jamais assassinará. Z jamais nos atraiçoará, sejam quais forem as circunstâncias. Temos tudo isso bem arrumadinho no nosso espírito, e quanto menos vemos determinada pessoa mais nos compraz verificar, sempre que dela temos noticias, como respeita obedientemente a ideia que fazemos a seu respeito. Qualquer desvio do destino que fixámos parece-nos não so' anómalo, mas também contrário à ética. Preferíamos não ter conhecido o nosso vizinho, vendedor reformado de cachorros quentes, se vimos a saber que acaba de publicar o melhor livro de poesia do século.

Cobri o rosto com a mão e derramei as lágrimas mais ardentes da minha vida. Sentia-as escorrer através dos meus dedos e pelo queixo abaixo, queimando-me, o nariz entupiu-se-me, não fui capaz de me controlar

- Se me tocas, morro – afirmei. – Tens a certeza de que não vais comigo? Não há nenhuma esperança de que me acompanhes? Responde-me só a isso.
- Não- respondeu.

Tens a certeza absoluta de que... bem, não digo amanhã, claro, nem depois de amanhã, mas... enfim, um dia, qualquer dia, não irás viver comigo? Criarei um deus novinho em folha e agradecer-lhe-ei com gritos penetrantes, se me deres essa microscópica esperança (qualquer coisa do género).
- Não – respondeu, sorrindo. – Não.
- Faria uma grande diferença se respondesses ´sim´.”

Vladimir Nabokov

[Faltam 4 dias e algumas horas...]
 
Uma viagem.

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