“Mas ela era pneumática em demasia, enquanto Fifi e Joana eram exactamente como convinha. Gorduchas, loiras, não muito grandes...”
“- Sozinho consigo, Lenina.
- Mas, Bernard, nós ficaremos sós toda a noite.
Bernard corou e desviou o olhar.
- Eu queria dizer... sós para conversar – murmurou.
- Para conversar? Mas a respeito de quê? – Andar e conversar parecia-lhe uma estranha maneira de passar uma tarde.
Por fim ela persuadiu-o, embora contra vontade, a voarem até Amsterdão para verem os quartos de final do Campeonato Feminino de Lutas (pesos-pesados).”
“- Prefiro ser eu mesmo – disse -, eu mesmo e desagradável. E não qualquer outro, por mais alegre que seja.”
“ – Que vem a ser os produtos químicos? – perguntava ele.
- Oh! São coisas como os sais de magnésio e o álcool para manter pequenos e atrasados os Deltas e os Epsilões, e o carbonato de cálcio para os ossos, e todas as coisas deste género.
- Mas como é que se fabricam os produtos químicos, Linda? Donde vêm eles?
- Disso já não sei nada. Eles estão nos frascos. E quando os frascos estão vazios mandam-se buscar outros frascos, lá acima, ao Depósito Farmacêutico. É o pessoal do Depósito Farmacêutico que os fabrica, julgo eu. Ou então mandam-nos buscar à fábrica. Não sei nada disso. Nunca trabalhei em química. O meu trabalho consistiu sempre em tratar dos embriões.
E acontecia o mesmo com todas as outras perguntas que lhe fazia. Linda parecia nunca saber nada. O ancião do pueblo tinha respostas bem mais precisas.
- O germe do homem e de todas as criaturas, o germe do Sol, e o germe da Terra, e o germe do Céu, foram todos criados por Awonawilona, a partir do nevoeiro do crescimento. Ora o mundo tem quatro matrizes e ele colocou os germes na mais baixa das quatro. E gradualmente os germes começaram a crescer...”
“Mas é absurdo uma pessoa deixar-se chegar a esse estado. Simplesmente absurdo – repetiu. – E a propósito de quê? De um homem, de um homem!
- Mas é o homem que eu quero.
- Como se não houvesse milhões de outros homens pelo mundo.
- Mas eu não quero esses.
- Como podes tu sabê-lo antes de teres experimentado?
- Já experimentei.
- Mas quantos? – perguntou Fanny, encolhendo os ombros desdenhosamente. – Um, dois?
- Dúzias. Mas – acrescentou meneando a cabeça – isso não me serviu de nada.
- Ora! É preciso insistir – sentenciou Fanny. Mas era evidente que a sua confiança na receita estava abalada. – Nada se pode alcançar sem perseverança.
- Mas enquanto espero...
- Não penses nisso.
- Não posso deixar de pensar.
- Então toma soma.
- É o que eu faço.
- Pois bem, continua!
- Mas nos intervalos continuo a gostar dele. Gostarei sempre dele.
- Pois então, se a coisa é assim – disse Fanny com decisão - , porque não o agarras, muito simplesmente, quer ele queira, quer não?
- Ah! Se soubesses como ele é terrivelmente estranho!
- Mais uma razão para escolheres uma linha de conduta firme.
- Isso é muito fácil de dizer.
- Não toleres asneiras. Age. – A voz de Fanny soava como um trompete. Parecia uma conferência de YWFA fazendo uma palestra nocturna às Betas-Menos adolescentes. – Sim, age imediatamente. Fá-lo desde já.
- Tenho muito medo – respondeu Lenina.
- Ora! Não tens de ingerir mais de meio grama de soma.”
“Não se podem fazer calhambeques sem aço e não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter. Sentem-se bem, estão em segurança, nunca estão doentes, não receiam a morte, vivem numa serena ignorância da paixão e da velhice, não são sobrecarregadas com pais e mães, não têm mulheres, nem filhos, nem amantes, pelos quais poderiam sofrer emoções violentas, estão de tal modo condicionados que, praticamente, não podem deixar de se portar como devem. E se por acaso alguma coisa correr mal, há o soma, que o senhor atira friamente pela janela em nome da liberdade, senhor Selvagem.”
“- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a pesia, quero autêntico perigo, quero a liberdade, quero a bondade, quero o pecado.
- Em suma – disse Mustafá Mond -, você reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja assim! – respondeu o Selvagem em tom de desafio. – Reclamo o direito de ser infeliz.”
“Ah, admirável mundo novo”
Aldous Huxley